Sobre saudade e outros insetos perigosos
Paixão, amizade e capacitismo porque é esse o mundo em que vivemos
Prólogo
Venho me prometendo e prometendo pra muita gente já faz um tempão que vou escrever uma Newsletter. Debati comigo mesmo e com várias pessoas o conteúdo disso daqui. Deveria eu falar de deficiência? Da minha vida? De como Solar Power é meu álbum favorito de Lorde mas melodrama também é meu álbum favorito de Lorde? Fingir que sei escrever ensaios críticos sobre qualquer coisa na vã esperança de que você acredite em mim?
Hoje, mais especificamente 10 minutos atrás, eu me decidi. Vou tentar simplesmente escrever, sem pensar tanto na forma ou no conteúdo. Escrever sobre qualquer coisa, falar água, expandir meus tweets além dos 280 caracteres. Seja bem vinde a mais um espaço esquisito da internet!
Mariposas sonham com crisálidas de vento
Era 3 da tarde de uma terça-feira e eu finalmente revi uma amiga que conheço desde 2018. Falamos da vida e de nós, do futuro e essas coisas sem muito significado enquanto saboreávamos uma coca 0 e café com leite da lanchonete da unidade de letras. Ali perto outras pessoas conversavam e os passarinhos, o vento, tudo ressoava dentro de mim como se eu fosse o corpo de um violão amplificando e absorvendo os arredores, transformando tudo aquilo em música.
Conversando com minha terapeuta semana passada, foi interessante notar como eu estou vivendo coisas de setembro pra cá. Me conectando, me reconectando com as pessoas, os lugares e as coisas. Saindo da crisálida e abrindo as asas, ainda que as vezes eu tenha medo das pessoas e das coisas, dos lugares. As vezes me sinto tentado a me recolher de volta no casulo. Há um certo conforto, uma certa previsibilidade na reclusão, no se desconectar de tudo e só viver no automático. Como dizem na internet, been there, done that.
A vibe des apaixonades
Tenho uma amiga (outra amiga) que está apaixonada ou em processo de se apaixonar, o que para todos os efeitos é mais ou menos a mesma coisa. Observo como quem observa um fenômeno da natureza, desses que passam e destroem umas coisas e constroem outras dentro da gente, beleza e pavor tudo junto e misturado. O amor é como um raio, já dizia Djavan.
Ser só mais um Zé no mundo
Uma coisa que sempre esteve muito presente na minha vida é essa sensação de ser o único. O único cego da turma, da escola, da universidade. É algo que tem implicações que vão muito além daquilo que eu vou conseguir alinhavar nesse texto, mas a nível muito pessoal é um saco. É como ser famoso mas sem ganhar presentes caros e dinheiro. Tudo que eu faço parece ter um peso, uma substância que vai além de mim. Cada ato, cada fala minha representa todos os cegos do mundo, um porta-voz mundial dos deficientes.
Gosto de estar entre deficientes. Competições paralímpicas são um alívio, apesar de toda ansiedade envolvida. Ali, nesses lugares, eu sou só mais um. É bom não ser o único, não ser aplaudido por saber tomar café com leite ou por fofocar. Meu objetivo de vida a nível pessoal é esse, poder cada vez mais estar entre quem acolhe minha cegueira e minha negritude e tudo aquilo que faz parte de mim, Pra que eu seja mais um cego negro no mundo.
